Uma das intrigantes questões relacionadas à história dos batistas, especificamente acerca do movimento batista moderno, é sobre a figura controversa de John Smyth, quanto a um evento de sua vida que chama a atenção pela importância em relação a história: o seu batismo.
Muitas informações são passadas e colocadas em questão para afirmar ou negar sobre o batismo de Smyth, sendo a mais reverberada delas, o seu dito “auto-batismo” (sebatismo), no qual ele mesmo teria administrado o batismo a si próprio, configurando assim um “problema teológico”.
Dado que a nossa questão aqui é a abordagem histórica e não teológica, não iremos adentrar o assunto sobre a validade de um batismo desse tipo, e sim ver se a história procede, se há uma afirmação de Smyth nesse sentido ou se seria uma acusação de seus detratores.
A versão do auto-batismo de Smyth ganhou força com a obra de Henry C. Martyn Dexter, um historiador congregacional, que publicou o livro The True Story of John Smyth, the Se-Baptist [A Verdadeira História de John Smyth, o Sebatista], onde ele conta sobre a vida, problemas e controvérsias de John Smyth, dando o famoso título de “Sebatista” (o “auto batista”) em referência ao seu suposto auto-batismo.
Nesta obra encontramos a análise mais completa e com fontes da posição em favor do autobatismo; iremos então partir dela para verificar se houve de fato um autbatismo, destacando que, embora historiadora, a obra é uma apologética ao batismo dos congregacionais, onde a parte apologética em favor de um batismo por afusão e descredenciar o batismo de Smyth se torna muito latente e compromete a interpretação mais isenta de Dexter.
Para defender a posição, Dexter recorre a alguns excertos de Smyth sobre o batismo e afirmações para concluir o autobatismo em Smyth. A fim de ganhar tempo, não citaremos ipsis literis essas frases de Smyth, mas faremos a referência e analisaremos as mesmas, com as devidas fontes para consulta e verificação. Além destes excertos, Dexter também enumera oito fontes fora de Smyth para concluir sobre seu autobatismo — nesse caso analisarmos a confiabilidade dessas fontes e, se as podemos usar para afirmar sobre o próprio Smyth. Destacamos já por agora, e depois colocaremos dentro da análise, que Dexter estava limitado ao seu tempo e não teve acesso a fontes posteriores para sua análise.
As asserções sobre John Smyth iniciam com a sua afirmação de que dois homens, por si só, podem administrar o batismo por eles mesmos, e ser válido o tal batismo,1 no que ele afirma que sozinho a ordenança não valeria, pois não seriam igreja, mas juntos, em nome de Cristo, o batismo deles, um com o outro, seria válido; Smyth então argumenta aqui em favor de um auto-batismo, mas novamente não afirma a prática em si mesmo ou em outros que ele estivera junto.
Em outra obra Smyth argumenta que, como eles, até aquela data, não haviam achado uma igreja que seria conforme o que se entendia ser bíblico, eles poderiam batizar uns aos outros, e não batizados poderiam batizar também completando com um “como nós fizemos”.2
Novamente, Smyth argumenta uma questão de batismo em grupo de cristãos que não acham uma “igreja correta”, e não há menção de um auto batismo e sim de um batismo administrado um ao outro.
Dexter embasa então essa conclusão de autobatismo em algumas testemunhas: Henry Ainsworth, John Robinson, Richard Clyfton, um anônimo com as iniciais “I. H.”, Edmond Jessop, Lubbert Gerrits e Richard Bernard.
Para uma análise destas testemunhas temos o seguinte contexto: Ainsworth, Robinson, Clyfton, Jessop, “I.H.” e Bernard são antagonistas de Smyth, procurando desqualificá-lo por interesses antagônicos ou embates que iam desde questões mais pessoais (como no caso de seu antigo colega Robinson) até questões de perseguição e imposição da crença religiosa-estatal (como no caso por exemplo de Jessop e Clyfton).
Dexter erroneamente chama alguns desses de “testemunhas credíveis”,3 quando na verdade não o são. Gerrits é um menonita, o qual analisaremos a parte, mas uma parte importante é que, mesmo que não haja uma confissão de Smyth sobre ter se auto-batizado, Dexter equivocadamente, conforme suas palavras, imagina a cena de um eventual auto-batismo, e conclui que essa sua imaginação teria sido algo factual.4
Diante dessa atitude nada isenta, como se espera de um historiador mais atento ao seu trabalho historiográfico, é facilmente justificada a sua conclusão em achar que opositores de Smyth tivessem credibiidade em suas acusações.
Um outro fato é que não somente o registro do autobatismo de Smyth e uma auto declaração do mesmo está faltando, como também o registro do batismo dos membros de sua congregação também não é citado por outros, além do que, o batismo de Morton e de Hewlys ao que parece, foi na verdade anterior à junção de Smyth ao grupo (o que podemos ver quando falarmos de Hewlys em outra oportunidade).
Portanto, Smyth poderia defender um auto-batismo de fato, sem tê-lo praticado, ou mesmo sem sua comunidade tê-lo praticado no todo (alguns já sendo batizados antes). Infelizmente, à época, alguns historiadores batistas seguiram os passos claudicantes de Dexter e passaram a afirmar o que a imaginação de Dexter construiu como um fato histórico (como Henry C. Vedder e John H. Shakeaspeare) sendo depois seguidos por outros históriadores batistas.
Quanto aos opositores de Smyth, suas acusações são sem fontes em escritos de Smyth, talvez a mais próxima teria sido a de John Robinson, que afirmou que tinha “ouvido deles mesmos”,5 porém ele não afirma o autobatismo, e sim que eles “recomeçaram uma igreja”.
Os demais seguem um tom acusatório longe de citações de obras de Smyth no sentido de admissão de fato de um autobatismo, tendo seguido os mesmos equívocos de Dexter, sendo que, a exceção de Gerrit, todos eles ou eram pedobatistas de fato ou credobatistas inconsistentes (que aceitavam o ritual de igrejas pedobatistas como batismo, e não exigiam um rebatismo).
O caso de Gerrit é um caso a parte; ele era um ministro menonita, que estava aprovando a entrada dos ingleses batistas na igreja sem um novo batismo; então Dexter o cita, com uma carta enviada pelo próprio a outros ministros menonitas e igrejas, como uma prova de que Smyth tenha se autobatizado; porém, a carta de Gerrit deixa claro que eles aceitariam o batismo dos ingleses, e que não estavam fazendo referência ao ministro que eventualmente batizou a si mesmo; no caso aqui, Gerrit ouviu a história do autobatismo e, mesmo assim, ou não a considerou como verdadeira, aceitando o batismo de Smyth, ou a considerou verdadeira porém não quis entrar na questão, como segue o texto de Gerrit:
Pois eles [os batistas ingleses] declaram que não tem nenhuma objeção em serem batizados novamente, se pudermos provar com a Palavra de Deus que o batismo deles tem menos valor que os do [anabatistas] flamengos, frísios e outros batistas [..], e distinguir o batismo daqueles que são batizados pelo próprio ministro [John Smyth], pois nós mesmos distinguimos o ato de batizar pelo qual ele se batizou, este é um assunto bem diferente no presente, o outro batismo [dos ingleses] é a questão.6
Não há, portanto, uma prova cabal, a partir desta citação, que John Smyth tenha se auto-batizado.
Por fim, duas coisas devem ser destacadas aqui. Em primeiro lugar, a inconstância de Smyth em sua teologia pode aparentar certo desespero em em defender suas visões que não são de fato coesas e precisam de sustentação que ultrapasse a própria ação tomada (ou seja, Smyth precisaria defender o auto-batismo, mas não necessariamente o teria praticado).7
O segundo ponto é que, dada a defesa de sua doutrina do batismo, era de se esperar que Smyth tivesse naturalmente confessado que o praticou, de forma simples ou pelo menos direta, coisa que não fez.
Isso nos leva a duas conclusões lógicas, ou ele não confessou tal ato por um constrangimento — o que não faz sentido visto que defender a doutrina provocou muito mais problemas e constrangimento do que simplesmente a praticar e afirmar –, ou ele de fato não a praticou e apenas a defendeu, dentro das conclusões de suas própria teologia, que o autobatismo seria biblicamente válido, o que faz muito mais sentido.
Notas de Fim
- John Smyth, The Character Of The Beast [O Caráter da Besta], 1609, pp. 58-59. ↩︎
- John Smyth, The Last Booke of Iohn Smith called the Retractation of his Errours, and the Confirmation of the Truth [O Último Livro de John Smyth chamado ‘Retratação’ dos seus erros, e a Confirmação da Verdade], 1611, p. 37. ↩︎
- Henry C. Martyn Dexter. The True History of John Smyth: The Se-Baptist [A Verdadeira História de John Smyth, o sebatista]. Boston, 1881, p. 29. ↩︎
- Ibid, p. 30. ↩︎
- John Robinson. Of Religion Communion [Sobre a Comunhão Religiosa] apud: The Works Of John Robinson: Pastor Of Pilgrim Fathers [As Obras de John Robinson, pastor dos Pais Peregrinos] (1851), vol. III, p. 168. ↩︎
- Lubbert Gerrits. Carta a Igreja em Leeuwarden em 1610, apud: Benjamin B. Evans, Early English Baptists [Primeiros Batistas Ingleses], Londres, 1862, vol I, p. 213. ↩︎
- Para mais informações sobre a Teologia de John Smyth e suas variações no decorrer do tempo, ver: The Theology Of John Smyth [A Teologia de John Smyth], de Jason K. Lee; inclusive o autor chega na conclusão de que embora ele tenha defendido o autobatismo, não o praticou. ↩︎





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