Por Sitri Silas Batista Lobato Siqueira

É bem conhecido por muitos, e especialmente por nós mesmos, que nossas congregações [batistas] como são agora, foram erguidas e estruturadas, de acordo com a regra de Cristo antes de ouvirmos falar de qualquer Reforma, mesmo naquela época em que o Episcopado estava no auge da sua glória desaparecendo.1

Uma das declarações mais importantes para o estudo da antiguidade das congregações batistas inglesas encontra-se em uma obra publicada por William Kiffin em 1645, A Briefe Remonstrance of the Reasons and Grounds of those People commonly called Anabaptists, for their Separation [Uma Breve Exposição das Razões e Fundamentos daqueles que são comumente chamados de Anabatistas, por causa da sua separação]. A declaração surgiu em resposta à acusação de que os chamados anabatistas haviam simplesmente “erguido novas congregações” para perturbar a Reforma então em andamento.

Kiffin rejeitou explicitamente essa premissa. Sua resposta afirma que as congregações que ele representava já haviam sido constituídas segundo aquilo que ele entendia ser a “Regra de Cristo” antes mesmo de ele e seus companheiros terem ouvido falar de qualquer Reforma.

Alguns historiadores tem identificado essa frase como uma referência a reforma promovida pelo Parlamento inglês (1641-1646) que culminou na Assembleia de Westminster e eventualmente na aderência ao presbiterianismo entre outras coisaa, porém as evidências da afirmação apontam numa direção muito anterior, de intenção, de Kiffin ao afirmar essa antiguidade.

Em primeiro lugar o próprio Kiffin aparece como signatário pouco tempo depois na obra A Way to Sion Sought Out, and Found, for Believers to Walke In: Or, A Treatise Consisting of Three Parts [Um Caminho para Sião Buscado e Encontrado para os Crentes Trilharem: Ou, Um Tratado Composto por Três Partes] (1650), de Daniel King, cuja proposição inicial defendia a existência de um povo de Deus durante “os tempos mais sombrios do papado”. A obra recebeu uma introdução assinada por William Kiffin, Thomas Patient, John Spilsbury e John Pearson. O relato da Folger confirma que a obra foi publicada em Londres em 1650, por Charles Sumptner para Hanna Allen, e que Daniel King é identificado como “preacher of the Word neere Coventry” (“pregador da palavra próximo a Conventry”). Entre as asserções dessa obra assinada por Kiffin está que Deus teve um povo “durante os tempos mais sombrios do papado, ao qual reconheceu como santos e como sua Igreja” e que “esses santos têm poder para reassumir e tomar como seu direito qualquer ordenança de Cristo da qual tenham sido privados pela violência e tirania do homem do pecado”.2 De onde se conclui uma visão bem mais antiga de Kiffin sobre as congregações a qual defendia os batistas como anteriores a Reforma.

Além disso, houve uma resposta a Kiffin, de Josiah Ricraft, o qual publicou em 1645 chamado A Looking Glasse for the Anabaptists and the Rest of the Separatists [Um Espelho para os Anabatistas e os demais Separatistas], expressamente como resposta ao texto de Kiffin. O relato de Folger identifica a obra como uma réplica à Briefe Remonstrance e data sua publicação de 1645. Na obra Ricraft conclui que Kiffin de fato alega “que sua congregação foi erigida e estruturada no tempo do episcopado, e antes de ouvirem falar de qualquer Reforma”,3 isso fornece uma controle contemporâneo da interpretação da frase de Kiffin, demonstrando uma antiguidade maior que simplesmente a Reforma do Parlamento.

Uma terceira questão é a análise do historiador de Oxford Mathew Bingham, ao analisar os documentos e referências da época; ele conclui Kiffin como incorporando sua congregação de meados da década de 1640 a uma tradição inglesa congregacional muito mais antiga, e pertencente a um “movimento de natureza de longa data”. A pesquisa de Matthew Bingham é particularmente útil porque, embora não aceite acriticamente uma identidade batista trans-histórica, reconhece que Kiffin apelava a uma tradição congregacional de longa duração, anterior à sua própria congregação e adesão ao movimento batista.4

  1. William Kiffin, A Brief Remonstrance of the Reasons and Grounds of those people commonly called Anabaptists for Their Seperation; Or, Certaine Queries by Mr. Robert Poole, Answered [Uma Breve Exposição das Razões e Fundamentos daqueles que são comumente chamados de Anabatistas por causa da sua separação; ou, certas indagações do sr. Robert Poole, Respondidas], 1645, p. 12. ↩︎
  2. Daniel King, A Way to Sion Sought Out, and Found, for Believers to Walke In. Or, A Treatise Consisting of Three Parts. London: Printed by Charles Sumptner, for Hanna Allen, 1650, disponível em https://catalog.folger.edu/record/517140 ↩︎
  3. Josiah Ricraft, A Looking Glasse for the Anabaptists and the Rest of the Separatists: Wherein They May Clearly Behold a Brief Confutation of a Certain Un-Licensed, Scandelous Pamphlet, etc. [Um Espelho para os Anabatistas e os Demais Separatistas: No Qual Podem Claramente Contemplar uma Breve Refutação de um Certo Panfleto Escandaloso e Não Autorizado, etc.], 1645, p. 7, disponível em https://catalog.folger.edu/record/138661 ↩︎
  4. Matthew C. Bingham, Orthodox Radicals: Baptist Identity in the English Revolution [Radicais Ortodoxos: A Identidade Batista na Revolução Inglesa]. Oxford Studies in Historical Theology. New York: Oxford University Press, 2019, Baptists Along the Congregational Way, p. 85-94 ↩︎

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