Notas de João Falcão Sobrinho1

Nota do Editor-chefe do Herança Batista: No ano de 1971, no centenário de fundação da Primeira Igreja Batista em Solo brasileiro, uma celebração especial aconteceu na Capela do Cemitério dos Americanos, em Santa Bárbara D’Oeste, interior de São Paulo. Hoje, dia 10 de setembro de 2026, quando os Batistas Brasileiros celebram os 155 Anos do Início do Trabalho Batista no Brasil, o Herança Batista resolve trazer ao seu público aquelas celebrações do ano do centenário. Todas as imagens e legendas são da publicação original de O Jornal Batista.

Templo erguido no cemitério do Campo, nos arredores do Município de Santa Bárbara. É usado esporadicamente, com reuniões promovidas pelos descendentes dos pioneiros norte-americanos, tendo, em geral, a direção e pregação do Pastor Walter Cullen.

Chegamos ao cemitério, seguindo as indispensáveis indicações da Srta. Charlotte Vaughan, pontualmente às 14h40. O início do culto memorial promovido pela Associação das Igrejas Batistas de Campinas e adjacências para celebrar os cem anos da data em que foi organizada a primeira igreja batista conhecida em solo brasileiro, estava marcado para as 15 h. Já encontramos no local a missionária Sistie Givens, do Paraná, preparada para dar cobertura jornalística ao acontecimento para a Junta de Richmond. Tínhamos saído da Praça XV, na GB, às 6h20, o Pastor Nilson Fanini, o Pastor Josias Machado, o fotógrafo Linhares e eu. Dia bonito, estrada boa e a viagem foi um descanso. Não tivesse a irmã Charlotte a lembrança e a bondade de nos telefonar, jamais teríamos acertado o caminho. Deixando Americana, alcançamos Silos, seguimos por entre canaviais guiados pelas setas até o aprazível sítio onde os despojos dos pioneiros e de seus descendentes aguardam o soar da trombeta. O cemitério pertence à municipalidade de Santa Bárbara e foi iniciado em 1886 [ano certo — 1868], porque os padres não permitiam que os corpos dos “hereges” tivessem descanso nas necrópoles oficiais. Ao chegarmos ao portão do cemitério, sentimos uma estranha emoção, um misto de respeito e gratidão. Logo se divisa a capela ali construída pela comunidade de descendentes dos imigrantes americanos. Ornamentando a mesa, ostensivamente, a bandeira dos confederados. O cemitério é dividido em alas por famílias e, na ala dos Vaughan, havia terra fresca removida e flores recentes: Roberto Riston Vaughan, 25 de agosto. Apanhei três pedrinhas polidas, bem brancas, no chão do cemitério: uma para o Erasmo, outra para D. Debie, que colecionam pedras e a terceira, para Ebenézer Cavalcanti, como lembrança.

Pastor Nilson do Amaral Fanini, orador-oficial da comemoração.
Missionário Horace Victor Davies, representante da Junta de Richmond, presente à comemoração.

A reunião foi iniciada pelo Pastor João Batista Martins de Sá, da Igreja Central de Campinas. Lotavam a capelinha alguns descendentes dos imigrantes pioneiros, pastores da região e membros de igrejas vizinhas. Canta-se o hino 15. É composta a mesa: Dr. Horace Victor Davies, que falou representando a Junta de Richmond; Pastor Walter Cullen, da Primeira Igreja de Americana, descendente de pioneiros imigrantes, que deu boas-vindas aos visitantes e explicou os motivos da celebração; Pastor Nilson Fanini, orador oficial da ocasião, e Pastor João Falcão Sobrinho, secretáriogeral da Junta Executiva da Convenção Batista Brasileira. Após uma oração, canta “a família Gunars Tiss”, como são apresentados o Pastor de Vila Velha e seus três filhos — uma adolescente ao órgão, um rapaz ao violino e outro em dueto com o pai. Assim, os letonianos, que tanto contribuíram para a evangelização do Brasil, também participavam da celebração com uma de suas melhores características, que é a música. O orador oficial, Pastor da Primeira Igreja Batista de Niterói, presidente da maior convenção estadual do Brasil e da Junta Executiva da C. B. B., Dr. Nilson Fanini, lê as palavras de Jesus a Pedro sobre a instituição da Igreja e, a seguir, iniciando com os fundamentos históricos e teológicos da Igreja, percorre, em rápidos relances, a história e a atualidade batista brasileira para nos transportar, ao fim, às glórias da ressurreição. Já nesta altura a reunião é dirigida pelo Pastor Ielon Nascimento, presidente da Associação promotora da celebração. Fala o Sr. James Roderick Jones, presidente da Fraternidade dos Descendentes dos Imigrantes Americanos, que sustenta reuniões trimestrais de confraternização. Fala o Pastor Josias Cardoso Machado, segundosecretário da Junta Executiva, da C. B. B., em nome desta entidade. É apresentada a escritora D. Judith Mac Knight Jones, autora do livro SOLDADO DESCANSA! também descendente dos imigrantes, que apresenta o seu livro. Fala o pastor Antunes de Oliveira, cuja esposa, D. Betty, filha do saudoso Pastor Ricardo Pitrowsky, é bisneta de Robert Porter Thomas, um dos pioneiros. Com D. Betty ao harmônio, sob a regência de Naida Victoria Hartmann canta-se o hino ‘Minha pátria para Cristo’, nº 439. Embaixo do púlpito, amarelecidos pelo tempo, vários volumes do Cantor Cristão, edição bem antiga, quase todos danificados pelo tempo.

Marco comemorativo do centenário da chegada da Colônia Norte-Americana a Santa Bárbara, construído ao lado do cemitério do Campo.

Mais cedo ou mais tarde, a Junta de Missões Estrangeiras da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos teria que estender sua epopéia missionária ao Brasil. A mão de Deus, porém, a quem nós ali no sítio de Santa Bárbara d’Oeste rendemos muitas graças por isso, dirigiu providencialmente a vinda dos imigrantes que fugiam das perspectivas sombrias que toldavam os céus da América do Norte após a Guerra da Secessão, em direção ao Brasil, a fim de preparar o caminho para a realização de uma das maiores obras missionárias dos tempos modernos. Na estratégia de Deus, vemos dois aspectos a destacar no fato histórico já sobejamente debatido nas páginas deste jornal. Primeiro, a estratégia da oportunidade. O alvorecer da República, com todo o seu elenco de liberdade, em especial a liberdade religiosa, já encontrou os batistas de estacas fincadas em terras brasileiras. Em segundo lugar, a estratégia dos precursores, tão bem lançada por Moisés e Josué. A colônia americana de Santa Bárbara d’Oeste, com suas duas igrejas batistas fundadas para o fim precípuo de cultuar a Deus na língua dos imigrantes e manter os laços comunitários, “espiou a terra”, viu que a terra era boa, que a receptividade para o evangelho seria excepcional e apelou à Junta de Richmond para que mandasse missionários. Depois, a mesma colônia foi uma bênção para o estabelecimento dos primeiros contactos dos missionários com o seu campo no estagio inicial de aprendizado da língua e aclimatação. É óbvio que os precursores de Santa Bárbara não puderam ver todas as dimensões e todo o alcance histórico do seu gesto visionário. Jesus mesmo não disse que o Reino de Deus começa pequenino, como um grão de mostarda, para tornar-se depois na maior das hortaliças? Embora os batistas brasileiros reconheçam 15 de outubro de 1882, data da organização da primeira igreja batista brasileira, na Bahia, como a data batista do Brasil, rendemos nossa profunda homenagem àquele punhado de desbravadores que, no dia 10 de setembro de 1871, há um século, fundaram uma igreja batista em solo brasileiro, que foi a semente, o instrumento de Deus para o início dessa epopéia missionária de que, por sua misericórdia, todos somos participantes.

Grupo de descendentes dos Norte-americanos pioneiros do trabalho batista em Santa Bárbara — Da esquerda para a direita: Primeira fila — Minnie Lee Vaughan, Vina Rowe Vaughan, Vina Elizabeth V. Carmello, Betty Pitrowsky de Oliveira. Segunda fila — Dr. James Jones, Judith MacNight Jones, Pastor Walter Cullen, Suszan Lee Carmello, Mary Elizabeth Vaughan, Laura Cullen Vaughan, Joseph Addison Vaughan. Terceira fila — Margareth Pauline Vaughan, Charlotte Estelle Vaughan, Anna Lee V. Zacarchenco.

Foi, pois, com a alma enternecida pela gratidão e o coração reverente de saudade e respeito, que participamos da celebração do centenário da organização da primeira igreja batista em solo brasileiro, na bela sexta-feira, 10 de setembro de 1971. No momento em que, todos ajoelhados, ferventes orações de louvor e intercessão pela pátria subiram ao Santo Trono do Senhor, sentimos, ali, clara e profundamente, com a presença de Deus, o sentido profundo e claro da hora que estávamos vivendo. Deus seja louvado e seu Filho Jesus Cristo engrandecido na salvação de milhões de brasileiros.


Notas:

  1. SOBRINHO, João Falcão. Um século depois, in: O Jornal Batista. Rio de Janeiro, RJ: Convenção Batista Brasileira. Ano 71. Nº 40. 3 out. 1971. pp. 1-2. ↩︎

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